Caso Aécio despista opinião pública e ajuda PSDB a blindar Alckmin
A decisão da 1ª Turma
do Supremo Tribunal Federal (STF) de aceitar denúncia da Procuradoria-Geral
da República contra Aécio Neves (PSDB-MG), agora
transformado em réu, acusado de corrupção passiva e obstrução de justiça,
provocou reação imediata do ex-governador de São Paulo e correligionário do
senador. "Claro que entristece. Não existe Justiça verde, amarela,
vermelha ou azul", disse Geraldo Alckmin na terça-feira (17).
A decisão do STF,
ainda que não ande com a velocidade em que andaram os processos contra o
ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, chega a ser eleitoralmente positiva
para Alckmin e o PSDB. Como Aécio, mesmo se fosse preso
amanhã, não tem a significância política e eleitoral. Tornar-se
réu oferece esse discurso de "lei para todos" aos tucanos.
Inclusive a Alckmin.
O governador é acusado de receber,
por meio de um cunhado, R$ 10,3 milhões em propina da Odebrechet, sendo R$ 2
milhões para a campanha de 2010 e R$ 8,3 milhões para a de 2014. Mas depois de
perder foro privilegiado no início deste mês ao deixar o governo – estando
assim exposto à primeira instância –, ele teve seu processo excluído da Lava
Jato pela ministra do Superior Tribunal de
Justiça (STJ) Nancy Andrighi, relatora do caso.
Ela enviou o
processo, que segue em sigilo, ao Tribunal Regional Eleitoral (TRE-SP). Um
semana depois, o "Santo", apelido atribuído ao ex-governador na lista
de propinas da empreiteira, declarou, sobre Aécio: "Decisão judicial se
respeita, a lei é para todos".
Para a professora e cientista política
da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar) Maria do Socorro Sousa Braga, a
fala de Alckmin reflete a postura cautelosa do próprio PSDB e tem alguns
objetivos claros. “Eles sabem que a opinião pública, ou parte dela, está de
olho na questão da corrupção.”
A partir dessa premissa, avalia, os
tucanos querem mostrar à população que o PSDB não é contra a Operação Lava
Jato. “Pretendem passar a ideia de cortar na própria carne e de que são todos a
favor da Lava Jato, desde que não afete outros nomes do partido. Eles não podem
cair em cima da Justiça falando contra ela. A ideia, também, é blindar Alckmin.
Mas se chegasse ao governador, não teriam o mesmo discurso.”
Denúncias
A professora lembra que há diversas
denúncias envolvendo o nome do governador paulista no estado. “E está tudo
parado, assim como nos casos de (José) Serra, o ministro das Relações
Exteriores, Aloysio, todos eles.”
Por enquanto, a tendência é a de os
tucanos tentarem “segurar o máximo que puderem” e evitar emitir qualquer juízo
de valor sobre o que venha a acontecer na esfera judicial. “Não tinham como
salvar Aécio, e os líderes do partido sabem disso. Mas o problema do PSDB se
tornará eleitoralmente muito sério se o clima de denúncias e julgamentos
envolvendo as principais lideranças do partido evoluir.”
Pré-candidato à presidência da
República, Alckmin afirmou à Rádio Bandeirantes que o melhor para o PSDB é que
Aécio não seja candidato em outubro, o que revela também a disputa interna
entre o PSDB paulista e o mineiro, que é antiga.
Após a prisão
do empresário Paulo Preto,
considerado operador do PSDB, o cientista político Roberto Amaral disse que, se
o ex-diretor da empresa paulista de infraestrutura rodoviária, a Dersa, “fizer
acordo e delatar o que sabe, a república do tucanato cai”.
Na sexta-feira (13), o Superior Tribunal de Justiça (STJ) negou pedido de
habeas corpus do empresário, preso em 6 de abril, um dia depois de o juiz Sérgio Moro decretar a prisão do
ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Nada indica que as denúncias
supostamente envolvendo tucanos andem com a celeridade inédita do processo
contra Lula. “Eu não diria que vai ser criada outra jurisprudência, mas tudo
vai ser muito mais lento, tanto em relação ao PMDB como ao PSDB. Se isso mudar,
é porque existem outras forças colocando pressão para que mais pessoas sejam
presas. Mas acho muito difícil”, diz Maria do Socorro. Com relação à frase “a
lei é para todos”, dita por Alckmin, até o momento parece um “disfarce”, diz a
professora.
Na opinião do
advogado criminalista Leonardo Yarochewsky, o andamento do caso de Lula “foi
numa rapidez surpreendente". "Em 30 anos de advocacia criminal nunca
vi uma rapidez como essa. O que chama mais atenção é que Lula foi condenado
absolutamente sem qualquer prova.
Foi tratado pela Justiça como um inimigo. Não só o ex-presidente Lula como sua
defesa, como símbolos da esquerda. ”
O jurista Pedro
Serrano defende a tese de que, a título de aplicar o Direito, o sistema de
Justiça suspende os próprios direitos em nome do combate a um
determinado inimigo.
“Vivemos um momento de exceção, de
ausência de direitos e garantias”, diz Yarochewsky. “Defendo que qualquer que
seja o político, de qualquer partido, tem que se respeitar a legalidade
democrática, os direitos e garantias fundamentais. Tem que se garantir a todos,
seja quem for, independentemente de partidos políticos e de convicções
ideológicas.” No caso da Lava Jato, o juiz Sergio Moro “era totalmente suspeito
e incompetente” para julgar Lula, na opinião do advogado.
Baseados no Código de Processo Penal,
os advogados do ex-presidente insistiram durante todo o processo que Moro não
era competente para julgar os crimes imputados a Lula, que supostamente
ocorreram em São Paulo. Pela lei, a competência é do lugar onde se
consumou a infração.
Fonte: Rede Brasil Atual






