Não valia nada, mas ao mesmo tempo valia
muito. Assim foi o aguardado retorno da Chapecoense aos gramados após quase
dois meses do acidente trágico que vitimou 71 pessoas, entre elas o presidente,
19 jogadores e diversas outras pessoas com diferentes vínculos com o clube.
Debaixo de um calor de mais
de 30ºC, a Arena Condá esteve em sua melhor forma, apinhada com mais de 14 mil
pessoas, e também bandeirões e faixas com imagens dos "heróis da
Chape", como se nesse dia as restrições mais detestadas do Estatuto do Torcedor
tivessem ficado obsoletas.
Antes da partida contra o
Palmeiras, justamente o último adversário antes da tragédia, os três jogadores
sobreviventes se juntaram aos familiares das vítimas para receber as homenagens.
O lateral Alan Ruschel, que
hoje pouco acusa a tragédia fisicamente; o zagueiro Neto, que tinha a situação
mais crítica entre as vítimas e nesta sexta (20) já começou a se exercitar na
bicicleta ergométrica do clube; e o goleiro Jackson Follmann, que teve parte da
perna direita amputada e foi conduzido a campo em cadeira de rodas pelo ídolo
do clube, Nivaldo, receberam suas medalhas de campeões e levantaram a taça da
Copa Sul-Americana -a equipe catarinense foi campeã após o Atlético Nacional,
da Colômbia, abrir mão de disputar a final.
Follmann recebeu alta
provisória do hospital, onde ficará pelo menos até terça-feira (24), quando
deve receber a alta definitiva.
"Para mim, é um pouco
duro. Ainda estou internado no hospital. Participar desse evento para mim foi
uma emoção muito grande. A gente sempre estava aqui, treinando, jogando. Vir e
ter uma homenagem emocionante... Não tem como não ir às lágrimas. Estou feliz e
me recuperando bem", disse Follmann à TV Globo.
O narrador Galvão Bueno, da
TV Globo, foi aplaudido pelos torcedores e teve o nome cantado enquanto se
encaminhava para a sua cabine de transmissão na Arena Condá. Ele participou da
cobertura do acidente em momentos-chave: da salva de palmas no "Jornal
Nacional" à chegada dos corpos no Brasil, e fez questão de participar da
reestreia da equipe.
Em campo, o "Jogo da
Solidariedade" teve momentos mais amistosos, outros mais competitivos e
alguns desencontrados, já que os jogadores ainda estão no início da temporada,
voltando à forma física e se entrosando.
Do lado palmeirense, as
atrações foram as estreias de Felipe Melo e do técnico Eduardo Baptista. O time
já começou a mostrar características desejadas pelo treinador, como a formação
em 4-1-4-1. A atuação do volante foi discreta. O primeiro gol saiu do estreante
Raphael Veiga, ex-Coritiba, logo no início do primeiro tempo.
Na sequência, Douglas
Grolli, um dos 23 contratados pela Chapecoense para a nova empreitada, empatou
o jogo. Já que o zagueiro é uma das grandes revelações da história de 44 anos
das categorias de base do time catarinense, o gol foi revestido de caráter
simbólico, reconhecido pelas empolgadas arquibancadas.
No primeiro minuto do
segundo tempo, o volante Amaral, de cabeça, virou o jogo. Se o primeiro tento
remeteu ao trabalho sério da jovem Chapecoense, o segundo referiu-se à solidariedade,
outro pilar da reconstrução: o Palmeiras paga a maior parte do salário de
Amaral.
Aos 26 minutos do segundo
tempo, a partida foi interrompida para a reprodução nos telões do estádio do
conhecido vídeo em que jogadores e comissão técnica comemoram a classificação à
final da Copa Sul-Americana. O momento de interrupção refere-se ao número de
vítimas do acidente, 71 minutos jogados, e irá se repetir em todos jogos na
Arena Condá.
Perto do fim, o meia
Vitinho fez um belíssimo gol de longa distância e transformou o resultado
naquele pelo qual a maioria torcia: um empate, 2 a 2.
CHAPECOENSE
Artur Moraes (Elias); João
Pedro (Zeballos), Douglas Grolli (Nathan), Fabricio Bruno (Luiz Otávio) e
Reinaldo (Diego Renan); Andrei Girotto (Luiz Antônio), Amaral (Moisés) e Nenén
(Dodô) (Martinuccio); Rossi (Arthur), Niltinho (Osman) (Nadson) e Wellington
Paulista (Túlio de Melo). T.: Vagner Mancini.
PALMEIRAS
Fernando Prass (Jailson);
Jean (Fabiano), Antônio Carlos (Mailton), Thiago Martins e Egídio; Felipe Melo
(Thiago Santos); Róger Guedes (Keno), Tchê Tchê (Arouca), Raphael Veiga
(Hyoran) e Dudu (Vitinho); Alecsandro (Erik). T.: Eduardo Baptista.
Gols: Douglas Grolli, aos
14min, e Raphael Veiga, aos 11min do 1º tempo; Amaral, aos 2min, e Vitinho, aos
33min do 2º tempo
Cartões Amarelos:
Wellington Paulista (C); Róger Guedes (P)
Estádio: Arena Condá, em Chapecó
(SC)
Árbitro: Heber Roberto
Lopes (SC)