Neto se auto-expulsa de campo, entrega jogo a Rui e produz um tsunami
A surpreendente decisão de ACM
Neto (DEM) de desistir de concorrer ao governo da Bahia, frustrando de forma
abrupta uma grande expectativa que passara a inspirar naturalmente na classe
politica e na sociedade desde que se reelegeu prefeito de Salvador com 74% das
intenções de votos, em 2016, e estimulara até o limite, vai provocar um tsunami
político cuja extensão será difícil de prever, mas terá enorme impacto tanto
sobre a oposição quanto a situação, comandada hoje pelo governador Rui Costa
(PT), candidato à reeleição.
Num
cenário presidencial totalmente indefinido, apesar da prisão determinada para o
ex-presidente Lula (PT), que parece se entrincheirar contra ela, com
consequências ainda imprevisíveis, o ato de Neto transforma o adversário
petista Rui praticamente num player solitário rumo à vitória eleitoral em
outubro, refém apenas do próprio destino, ao passo que, ainda que queira
arrumar uma alternativa ao seu nome, como a tentar remendar o estrago de seu
recuo, o prefeito verá esvair-se a sua até aqui firme e promissora liderança.
Da
mesma forma que a demora e os sinais trocados quanto à candidatura já vinham
indicando, em decorrência da atitude, Neto perde a autoridade para produzir
qualquer solução razoável para o problema que criou para as forças oposicionistas
e mesmo o eleitorado ou uma geração que via nele a chance de representação
neste conturbado momento da vida nacional. Ainda que consiga reunir aliados
para montar uma chapa alternativa ao governo, sua ausência da cena traz aos
eventuais substitutos o carimbo do medo e da derrota.
Gostem
ou não dele, Neto nunca foi uma opção exclusivamente local. Desde que firmou-se
como político, características inatas passaram a projetá-lo, como normalmente
acontece com figuras como a sua, para desafios sempre maiores, entre os quais a
disputa pelo governo da Bahia era apenas uma etapa que precisaria cumprir com
senso de abdicação e denodo a fim de habilitar-se para as próximas, na
qual se inscreve, naturalmente, a Presidência da República.
Neste
processo, entrar em campo, sobretudo nas condições atuais, era mais importante
que ganhar. O prefeito parece ter aberto mão dessa regra básica que precisa
integrar o entendimento de qualquer líder e não terá alternativa, senão pagar o
preço de desconsiderá-la. Mais do que isso, necessitará ser mais forte agora do
que nunca para não ser revolvido às profundezas do descrédito e da desconfiança
absoluta pelas ondas que liberou. Afinal, se gerou decepção e frustração entre
os admiradores, que terão que conviver com as inúmeras suspeitas sobre a real
motivação do seu passo atrás, turbinadas pelos adversários, causou muito mais
rancor naqueles que permitiu que amarrassem seu destino ao dele.
Neste
momento, destruição é o horizonte, desespero o sentimento e revolta o alimento
de todos eles. Se por acaso a Neto não é possível culpar exclusivamente pelo
desfecho de insensata ruptura, a eles muito menos, nesta partida de esperança e
liderança que constitui sobretudo a política. Agora, é exagero falar em
suicídio político. Melhor referir à auto-destruição de um grande capital e,
levando em conta sua juventude e inteligência, a um vôo temporário para outra
dimensão. Entretanto, tendo aberto mão, de maneira tão arriscada, da virtu, é
impossível prever quando voltará a contar com a fortuna.
Fonte: Politica Livre





