Filme sobre Edir Macedo, 'nada a perder' bate recorde de bilheteria com salas vazias
Talvez fosse
necessária uma auditoria. "Nada a Perder - Contra Tudo. Por Todos", a
cinebiografia do bispo Edir Macedo por Alexandre Avancini, estreou na
quinta-feira (29), alardeando números grandiosos. O longa vendeu
antecipadamente 4 milhões de ingressos, o que o converte no maior sucesso de
bilheteria do cinema brasileiro no ano, até agora. Sucesso de bilheteria, mas
não de público. A reportagem constatou que o filme estreou para salas
praticamente vazias.
A auditoria poderia
ser para constatar quantos, dos ingressos vendidos, corresponderam a
espectadores que realmente viram o filme. Pode parecer injusto - os ingressos
foram comprados. Mas a injustiça é com os filmes que são vistos e permanecem
abaixo desse total. "Nada a Perder" é sobre uma fraude - o julgamento
viciado a que foi submetido o bispo, pelo menos essa é a tese defendida pelo
diretor Avancini em sua ficção. "Nada a Perder" começa justamente com
a prisão do bispo. Uma perseguição nas ruas, ele é tirado de dentro do carro e
algemado diante da mulher e da filha. Os policiais mais parecem bandidos, agem
com truculência e sua arrogância vai permanecer por todo o filme.
A prisão ocupa o
começo e o fim, e "durante" o filme conta a história de Dedinho, o
menino estigmatizado por uma má formação congênita nas mãos e que cresce
revoltado - contra Deus. Mas ele não se revolta só pelo próprio problema. Sofre
pela irmã, com sua dificuldade de respirar, sofre pelos pobres. Seu sonho é a
evangelização, e para realizá-lo, Edir vai fundar a própria igreja. A Universal
do Reino de Deus. Contra tudo, por todos. E o roteiro chega ao xis da questão.
Para aumentar sua força evangelizadora, Edir precisa de uma TV. Compra a Record
e é alvo de uma investigação que o filme mostra como complô de políticos,
empresários do ramo e representantes da Igreja Católica. O juiz é corrupto e
faz parte do grupo que o acusa de falsidade ideológica e crimes contra a fé -
charlatanismo. No limite, Edir é salvo pelo Plano Collor, que derruba as
dívidas em dólar, e pelas orações do povo, que faz vigília diante da cadeia.
"Nada a Perder" é sobre a força do povo, a força (interior) do homem
íntegro.
Naturalmente que
essa exaltação do homem puro, do homem simples - Edir - toma ares de
hagiografia. Em bom português, o filme é chapa-branca, mas a discussão jurídica
que atravessa "Nada a Perder" (roubou? Não roubou?) não deixa de
refletir, como um espelho, dúvidas que assolam o Brasil real. Ah, sim. Edir
chega à Polícia Federal - no filme, os coletes dizem Civil -, chama a agente de
"minha filha". Ela reage - não é "filha". Você já viu isso,
com outros termos e personagens. O diretor Alexandre Avancini, filho de Walter,
já provocou polêmica com "Os Dez Mandamentos", outro megassucesso de
bilheteria - a maior do cinema brasileiro - que não foi referendado pelo
público. "Os Dez Mandamentos" era uma súmula da novela. Condensar uma
novela inteira em duas horas, dar um mínimo de coerência à história e aos
personagens não representa pouco. Desta vez, Avancini não trabalha sobre imagens
já captadas. Ele filmou, e contou com bons atores - Petrônio Gontijo e Day
Mesquita, que fazem Edir e a mulher, Ester. Avancini não quis dar entrevista,
não mostrou o filme para a imprensa. Seria interessante discutir com ele o
subtexto político de sua história. No final, a surpresa - aliás, duas. O filme
termina em aberto, prometendo uma sequência. E o próprio bispo marca presença,
convidando o público para orar na poltrona.
BarreirasEstadão
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