Bolsonaro confirma mudanças em divulgação de boletim diário com números do coronavírus
'Subnotificações e
inconsistências
Neste sábado, Bolsonaro voltou a falar sobre o assunto, desta
vez por meio de uma rede social. De acordo com o presidente, o “Ministério da
Saúde adequou a divulgação dos dados sobre casos e mortes relacionados ao
Covid-19” e optou por divulgar o balanço diário mais tarde para “evitar
subnotificações e inconsistências.”
Depois,
o presidente alegou que o atraso se devia à necessidade de pegar com os estados
dados mais consolidados, mas não explicou por que, por mais de 70 dias, foi
possível consolidar os dados mais cedo. Ele também não informou por que os
números que são divulgados às 22h constam de uma planilha que atualiza dados
até as 19h.
“As
rotinas e fluxos estão sendo adequados para garantir a melhor extração dos
dados diários, o que implica em aguardar os relatórios estaduais e checagem de
dados. Para evitar subnotificação e inconsistências, o Ministério da Saúde
optou pela divulgação às 22h, o que permite passar por esse processo completo.
A divulgação entre 17h e 19h, ainda havia risco subnotificação. Os fluxos estão
sendo padronizados e adequados para a melhor precisão”, informou o presidente.
Mais uma vez, Bolsonaro não explicou por que era possível,
antes, consolidar os dados mais cedo.
Na
sexta, Jair Bolsonaro, como faz habitualmente, criticou o jornalismo da Globo e
acrescentou: "Ninguém tem que correr para atender a Globo".
Sobre
a declaração, a Globo divulgou a seguinte nota:
"O
público saberá julgar se o governo agia certo antes ou se age certo agora.
Saberá se age por motivação técnica, como alega, ou se age movido por
propósitos que não pode confessar mais claramente. Os espectadores da Globo
podem ter certeza de uma coisa: serão informados sobre os números tão logo
sejam anunciados porque o jornalismo da Globo corre sempre para atender o seu
público".
Decisão
de divulgar dados mais tarde gerou críticas
Especialistas em saúde e integrantes dos poderes Legislativo e
Judiciário têm criticado fortemente o governo federal por retardar a divulgação
dos números da pandemia coronavírus. O Ministério da Saúde tem publicado os
números de mortos e contaminados só por volta das 22h, mesmo com as informações
já tendo sido consolidadas desde as 19h.
Fontes
do ministério disseram que foi uma ordem vinda do Palácio do Planalto para
atrasar e dificultar a divulgação dos crescentes números de casos e mortes.
Numa
rede social, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes, disse
que os dados do Ministério da Saúde “devem estar abertos ao público, aos
gestores e, portanto, à imprensa de forma consistente e ordenada.”
A
Associação Brasileira de Imprensa (ABI) disse que “enquanto o número de mortos
e contaminados atinge níveis recordes no país, ceifando a vida de milhares de
brasileiros, o governo de Jair Bolsonaro opta por dificultar o acesso a
informações sobre o avanço da doença.”
A
ABI disse ainda que o Ministério da Saúde passou a atrasar a divulgação dos
dados “na tentativa de calar a imprensa por meio do adiantado da hora.”
A
vice-presidente da comissão mista do Congresso que acompanha o coronavírus,
senadora Eliziane Gama (Cidadania-MA), informou que quer convocar o ministro
interino da Saúde, Eduardo Pazuello, para dar explicações.
“A
transparência é essencial para se combater a doença principalmente agora, com
os números de infecção e óbitos crescentes. Não se pode imaginar ou permitir
qualquer manipulação nessa área. Seria crime de responsabilidade”, disse.
O
presidente da Câmara, Rodrigo Maia, disse, na sexta, que, se o governo
continuar atrasando a divulgação do balanço, o Congresso vai criar um sistema
próprio com as secretarias estaduais de Saúde para atualizar os números.
“Nós
temos que organizar de algum jeito as informações, é pra sociedade. O ideal é
que o governo restabeleça isso o mais rápido possível. Espero que nos próximos
dias o ministro da Saúde compreenda que informar é fundamental pra sociedade
brasileira, principalmente num mundo tecnológico. Num mundo com tanta
tecnologia, a gente omitir informação parece que é um erro muito grande.”
O
ministro do Tribunal de Contas da União (TCU) Bruno Dantas também propôs a
criação de uma rede paralela à do governo, envolvendo os tribunais de contas
nos estados, para consolidação dos dados sobre a covid-19 e "divulgação
diária até as 18h".
Dantas, por meio de uma rede social, justificou a medida diante
das "novas dificuldades para divulgar dados nacionais de infectados, curados
e óbitos da Covid-19."
OMS
Na mesma entrevista, concedida na sexta, em frente ao Palácio da
Alvorada, Bolsonaro fez críticas à Organização Mundial da Saúde (OMS).
“O
Trump [presidente dos Estados Unidos] cortou a grana deles, voltaram atrás em
tudo. E adianto aqui: os Estados Unidos saíram da OMS. A gente estuda no futuro
– ou a OMS trabalha sem o viés ideológico – ou nós vamos estar fora também. Não
precisamos de gente de fora dar palpite na saúde aqui dentro”, disse o
presidente.
Na sequência, Bolsonaro foi questionado se pretende fazer com
que o Brasil deixe a OMS. Ele afirmou:
“É
o seguinte: ou a OMS realmente deixa de ser uma organização política,
partidária, assim, vamos dizer, até partidária, ou nós estudamos sair de lá”,
frisou.






