Governo está 'desabando', mas oposição precisa ir além da esquerda
O governo Bolsonaro está
"desabando", até antes do que se previa, mas a oposição, se quiser se
fortalecer, precisa ir além da esquerda e – particularmente no caso do PT – se
reaproximar de sua base social, afirma o governador da Bahia, Rui Costa.
Reeleito em 2018 com 75% dos votos, ele só perdeu em três dos 417 municípios
baianos. Para Costa, isso é consequência do contato direto com a população.
O governante brinca dizendo que é até
difícil fazer oposição, diante do "vazio completo de ideias" no
Planalto. "É a ausência absoluta, vai criticar o quê?", ironiza,
depois de observar que nos primeiros meses de governo o bom senso determina à
oposição recolher seu trem de pouso. Mas, passado esse primeiro momento, para
encorpar a resistência, é preciso mais. "Temos de construir além do
chamado campo de esquerda', afirma.
"Esse
é um trabalho que nós, governadores, estamos fazendo, conversando com quem
pensa diferente", diz Costa, que participou ontem (25) à noite de
entrevista coletiva no Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé,
na região central de São Paulo, onde no mês passado esteve o
governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB). "Construir
hegemonia política é tarefa difícil. É ter capacidade de dialogar com quem
pensa diferente de você."
Sobre a relação com o governo
Bolsonaro, ele respondeu que não mudou em relação a Temer. "O tratamento é
idêntico. Era ruim, continua do mesmo jeito." Segundo Costa, o governo
federal deve R$ 180 milhões à Bahia relativos a custos com obras do metrô.
Pé na lama
Quase no encerramento, ele driblou uma
pergunta sobre candidatura presidencial, argumentando que a discussão deve ser
feita de baixo para cima, sem imposição. "Não vamos começar pelo fim. Em
vez de estar brigando pra ver quem junta mais crachá na convenção, vá botar o
pé na lama, vá se misturar com o povo. Precisamos voltar a fazer convencimento.
Subir o morro, descer a baixada."
Para o governador petista, não só seu partido, mas a esquerda
em geral muitas vezes rendeu-se a interesses corporativos "que nem sempre
representavam uma visão social", com certa "captura" do Estado
por corporações. Ele defendeu um reencontro da legenda com sua base social.
Contou ter feito mais de 500 visitas institucionais – "Um a cada três dias
no interior" – e ido 400 vezes a escolas. "Para ouvir muitas vezes
desaforos dos meninos. É isso que pregávamos na fundação do PT", afirma.
Isso também significa mexer em temas espinhosos. Costa falou
longamente sobre a questão da violência, revelando inclusive que há um debate
entre governadores sobre a criação de uma força regional da segurança pública.
"Pretendemos ter uma estrutura regional, que possa ser compartilhada."
Crime organizado
"Nós da esquerda em geral estamos dando pouca atenção à
violência competida pelo crime organizado", diz o governador, referindo-se
às jovens vítimas das disputas do tráfico. "Os nossos governos não enfrentaram
isso. (...) Eu não defendo aumento da pena, defendo o cumprimento da
pena", afirma, lamentando a soltura precoce de condenados por homicídios,
que segundo ele são estatisticamente reincidentes.
"Não vamos conseguir representar essas famílias (de vítimas
de assassinatos) se não conseguirmos dar uma resposta a elas. Não vão nos
ouvir. Em alguns pontos, não somos majoritários na nossa forma de pensar."
De acordo com o governador, na Bahia foram criados núcleos para que, em casos
de delitos mais leves, o condenado possa cumprir penas alternativas com
garantia de acompanhamento pelo governo estadual.
Ele falou também sobre o consórcio de governadores da região
Nordeste e a busca de uma "sintonia" para realizar ações concretas,
compartilhar "boas práticas" e conseguir "algum nível de
enfrentamento contra a retirada de direitos". Há um debate engatilhado
sobre a formação de uma "Rede Nordeste", de comunicação
compartilhada, usando a estrutura das TVs educativas, presentes em seis do nove
estados da região.
Ainda segundo o governador, existe em curso uma articulação com os
sete estados do Norte. Costa lembrou que, somadas, as duas regiões têm maioria
no Senado: 48 de um total de 81 cadeiras.
O baiano também considera possível e necessário influenciar na
questão da "reforma" da Previdência, no sentido de "não
empobrecer a já pobre população rural do Nordeste, quem já vive com limite
mínimo de renda". Para ele, insistir na capitalização, como quer o
ministro Paulo Guedes, é desastroso, inclusive para as contas públicas. O
governador afirma que nenhum país de ponta, economicamente falando, adotou esse
modelo. "Não é aceitável para o Braisl, isso vai empobrecer ainda as
pessoas idosas. Além do que, quebra o conceito de solidariedade
inter-geracional."
Costa reservou a fala final para um comentário sobre a prisão do
ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. "É a a maior injustiça que já vi
acontecer na minha existência enquanto ser humano", afirmou.







