Centrais e oposição veem chance real de derrubar reforma e falam em greve geral
São Paulo – "Temos um chance
enorme de derrubar essa reforma", afirmou o presidente da CUT, Vagner
Freitas, quase ao final do ato na Avenida Paulista, na noite desta sexta-feira
(22), fechando um dia de manifestações contra a Proposta de Emenda à Constituição
(PEC) 6, que mexe na Previdência Social. "Vai ser a primeira grande
derrota desse governo", acrescentou o sindicalista, que reforçou o coro
por uma paralisação nacional caso o Executivo insista na tramitação do projeto.
"Se for votar a reforma da
Previdência, vamos fazer a maior greve geral da história deste país",
disse Vagner, que chegou a falar em 70 mil pessoas presentes na Paulista.
"Os trabalhadores já entenderam que o Bolsonaro quer vender a aposentadoria
para os bancos." O presidente da CUT informou ainda que, de forma inédita,
o 1º de Maio deste ano reunirá todas as centrais.
Representantes de
centrais sindicais e partidos de oposição se revezaram no caminhão de som,
diante do vão livre do Masp, em manifestação que incluiu ainda um ato ecumênico
em memória das vítimas do ataque a uma escola pública em Suzano, na região
metropolitana de São Paulo, no dia 13. O sindicato dos professores da rede
estadual (Apeoesp) lançou a campanha "livros sim, armas não". A
categoria reforçou o ato na Paulista, vindo de passeata desde a Praça da
República, no centro, onde fez assembleia e
decretou estado de greve.
Ex-ministro do Trabalho e da
Previdência (governo Lula), Luiz Marinho chamou a proposta governista de
"uma grande crueldade, principalmente com os mais vulneráveis", além
de desnecessária. Antes do início do ano, por volta das 18h, o atual presidente
estadual do PT dizia que o problema da Previdência é, basicamente, fiscal.
"Só é deficitário porque a economia está no chão", afirmou,
observando que é preciso recuperar a atividade econômica para garantir a sustentabilidade
do sistema, ao contrário do que diz o governo, que condiciona a
"retomada" à aprovação da reforma.
"(É preciso) combater a
sonegação e fazer uma reforma tributária pra cobrar de quem não paga",
disse Marinho. "Ele (Bolsonaro) prometeu um desmonte para que o sistema
financeiro possa oferecer planos de saúde privada." Para o petista, é
preciso permanecer nas ruas para forçar o Congresso "a rechaçar a
maluquice desse irresponsável".
Unidade, greve e Chile
A unidade entre as frentes Brasil
Popular e Povo sem Medo vai "derrotar essa malfadada reforma",
afirmou o secretário de Relações Internacionais da CTB, Nivaldo Santana, para
quem um vitória nesse tema vai ajudar a enfraquecer o governo. "A greve
geral está sendo amadurecida e no momento oportuno, com unidade e organização,
nós vamos marcar", lembrou o sindicalista, que também criticou o resultado
da viagem de Jair Bolsonaro aos Estados Unidos. "Com a extrema-direita no
poder, o Brasil está sendo humilhado. É um governo que privatiza e desnacionaliza
nossa economia, que não tem uma gota de democracia", atacou Nivaldo.
"Se derrubar essa reforma, a gente
derruba o Bolsonaro", afirmou um dos primeiros oradores, o presidente da
CGTB, Ubiraci Dantas de Oliveira, o Bira. "A mentira de Bolsonaro está
ficando clara para o povo brasileiro", acrescentou, fazendo ainda
referência ao modelo implementado no Chile, nos anos 1980, que serve de
inspiração para o ministro da Economia, Paulo Guedes. "A capitalização foi
a desgraça do povo."
Candidato à Presidência da República
pelo Psol em 2018, o líder dos sem-teto Guilherme Boulos referiu-se ao sistema
de capitalização como "lei da selva" e disse que, no Chile, a maioria
dos aposentados nem sequer recebem um salário mínimo. "Eles têm
'povofobia'", disse Boulos sobre o governo. Ele se referiu também a uma
declaração de Bolsonaro sobre suposta má formação entre aqueles incluídos no
programa Bolsa Família. "Se tem alguém neste país com baixo
desenvolvimento intelectual, está no Palácio do Planalto", ironizou.
"Por que não faz reforma cobrando
a dívida das grandes empresas para o INSS, acabando com as desonerações
fiscais, taxando grandes fortunas, fazendo o andar de cima pagar a
conta?", questionou Boulos. "Hoje se inicia um grande movimento pelo
país, que vai barrar a reforma de Bolsonaro", acrescentou, também citando
a viagem do presidente pelos Estados Unidos e sua crítica aos que aqui se opõem
à PEC da Previdência. "Quem faz oposição ao Brasil é quem vai lamber bota
de Donald Trump."
Para Atnágoras Lopes, da coordenação da
CSP-Conlutas, o movimento desta sexta "foi muito maior do que as nossas
previsões". "Estamos ganhando esse debate", afirmou, reforçando
a disposição por uma greve geral. O presidente da CSB, Antonio Neto, disse que
o passo seguinte é cobrar os parlamentares, nos aeroportos e em suas
residências. "Quem vota (na reforma) não volta, como aconteceu com quase
50% de quem votou na reforma trabalhista", afirmou.
"A juventude do Brasil vai
enterrar a reforma dos banqueiros", disse o secretário-geral da Intersindical,
Edson Carneiro, o Índio. O presidente estadual da Nova Central, Luiz Gonçalves,
o Luizinho, classificou a proposta de "picaretagem" e pediu auditoria
da dívida pública. Dirigente do Sindicato dos Condutores de São Paulo, durante
a madrugada ele esteve em uma garagem na região oeste ajudando a retardar a
saída dos ônibus.
Quase no
encerramento, também em homenagem às vítimas de Suzano, a cantora Railidia
Carvalho interpretou Coração de Estudante, de Milton Nascimento e
Wagner Tiso, que se tornou uma das canções-símbolo da campanhas pelas eleições
diretas para presidente, em 1984.
O ato teve muitos pedidos de "Lula
livre", pela libertação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A duas
quadras do caminhão de som, havia um enorme boneco simbolizando Bolsonaro, com
os dizeres "Laranjal do PSL" na faixa presidencial.
Fonte: Rede Brasil Atual






