Decisão por Haddad encerra divisão no PT e dá unidade a estratégia eleitoral
A decisão
tomada hoje (11) pelos petistas pela renúncia da candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência da República e
formalização da chapa Fernando Haddad (PT), em substituição a
Lula, e Manuela D’Ávila (PCdoB), como candidata a vice, encerra uma divisão que
vinha sendo observada há pelo menos três meses dentro do partido. Os dois
grupos, o que defendia adiar o anúncio ao máximo como e que defendiam a
antecipação da substituição, destacaram na reunião da direção executiva
nacional da legenda, em Curitiba, que agora a luta passa a ser intensa, e com
metas convergentes.
Ainda que a legenda tenha conseguido
estancar as diferenças, evitando grandes exposições e embates no ambiente
externo, ficou assinalado na reunião de hoje que a unidade entre as correntes
deve ser o fio condutor dos dos objetivos de derrotar o golpe, alcançar
vitórias regionais e ampliar as bancadas legislativas.
A primeira tarefa é
disseminar o potencial de transferência de votos de Lula para
chapa "Haddad-Manu", conforme as pesquisas começam
a expor – vai de 33% a 49%, segundo pesquisa Datafolha
divulgada ontem. E fixar entre o eleitorado, que costuma definir na reta final
da campanha a sua escolha, o entendimento de que “Haddad é Lula e Lula é
Haddad”.
A tese da
substituição já estava consolidada desde o sábado (8), quando se avaliava que o
Judiciário está irredutível em desacatar as recomendações da Organização
das Nações Unidas (ONU). Cresce a falta de confiança na
independência dos magistrados dos tribunais superiores para respeitar a tese
constitucional da preservação do direito de Lula até que seu caso tenha sido
julgado em último grau.
Alem disso, pesou o fato de que, se
prevalecer a decisão da presidente do Superior Tribunal Eleitoral (TSE),
ministra Rosa Weber, que não concordou com o adiamento do prazo para indicação
de um substituto para a candidatura Lula, a se encerrar nesta terça-feira, o
partido poderá ficar fora da disputa.
A posição da
procuradora-geral-da República, Raquel Dodge,
também vem sendo muito criticada. Raquel, antes de assumir o cargo, era
defensora de tratados internacionais. Mas a procuradora-geral mudou o
discurso desde que assumiu o cargo, nos pareceres relacionados ao caso do
ex-presidente.
‘Não tivemos escolha’
“Estamos satisfeitos por compreendermos
que Haddad além de leal a Lula, é extremamente preparado e um autêntico
representante do nosso partido, mas não estamos aqui por opção e sim porque não
tivemos escolha, diante de um Judiciário que tem uma lei para os outros e outra
lei diferenciada apenas para o Lula”, disse o líder do PT na Câmara, deputado
Paulo Pimenta (RS).
“Estamos na verdade, fazendo isso
praticamente com a faca entre os dentes”, completou o deputado Wadih Damous
(PT-RJ). “O Judiciário assumiu um protagonismo digno de magistrados que vivem
num Estado de exceção”, criticou ainda o líder.
Pimenta e Damous se mobilizaram com a
apresentação de inúmeros recursos e representações protocolados em várias
instâncias do Judiciário, sem participar diretamente da decisão dos grupos
divergentes. Um grupo capitaneado pela presidenta nacional do PT, senadora
Gleisi Hoffmann (PR), e o senador Lindbergh Farias (RJ), trabalhou para que a
decisão fosse adiada até o último instante e que ainda se aguardasse o
julgamento do último recurso, apresentado pela defesa de Lula no Supremo
Tribunal Federal (STF) – que tem como relator o ministro Celso de Mello.
Pesaram na decisão, entretanto,
argumentos do ex-governador da Bahia e ex-ministro Jaques Wagner, de que o PT
precisaria apresentar o que ele vinha chamando de “candidato real” o quanto
antes. E, também, informações do governador do Piauí, Wellington Dias, de que a
agilidade na questão era necessária porque, por parte do Nordeste, os eleitores
embora propensos a votarem no representante do Lula, podem não estar prontos
para fazer isso “cegamente”.
Eles foram considerados petistas que
apresentaram uma posição “mais pé no chão” no convencimento da maioria dos
integrantes da sigla.
Agora, a executiva
pretende dar início à campanha por Haddad e Manuela com intensidade,
aproveitando todo o suporte do Lula e da carta escrita pelo
ex-presidente nesta tarde.
‘Nova etapa do golpe’
“Não temos como mentir, hoje é um dia
triste para nós”, disse Lindbergh. “Um dia histórico que consolida uma nova
etapa do golpe iniciado em 2016, com o impeachment da presidenta Dilma
Rousseff, mas estamos confiantes que os que fizeram tudo isso para impedir o
Lula de ser candidato não podem prender o povo nem impedir o povo de votar no
Haddad”, acrescentou.
“Os militantes precisam entender que
este é um momento muito importante nesta eleição porque precisamos nos unir,
esquecer divergências e agora lutar para fazer o povo entender que Lula é
Haddad e Haddad estará no governo, mas desenvolvendo o plano de governo do
Lula”, disse ainda o parlamentar fluminense, líder do PT no Senado. “Precisamos
saber comunicar bem ao eleitor do Lula que o nome é Haddad”.
Lindbergh ressaltou que a grande
diferença da militância do PT. “Somos guerreiros”, frisou, ao contar que os que
estiveram com o ex-presidente o acharam “muito triste”. “Ele (Lula) queria
ser candidato, é claro. Ninguém está feliz aqui, mas estamos todos
determinados. E podem ficar certos de que a força de Lula será maior do que
qualquer coisa e que é ele quem vai decidir o resultado desta eleição”, disse.
Recentemente, a defesa de Lula entrou
com um pedido urgente no STF para que seja prorrogado o prazo dado ao PT para
substituí-lo como candidato do partido à Presidência da República. Além disso,
em paralelo à apelação, os advogados entraram com outra petição na mais alta
Corte do país, desta vez pedindo com urgência a concessão de uma liminar
(decisão provisória) que permita a Lula continuar como candidato ao menos até o
dia 17 – data limite para troca de candidatos, ou até que o plenário do STF
discuta em definitivo a situação do ex-presidente.
A posição inicial da defesa de Lula foi
de que o TSE julgou o registro de candidatura de forma açodada, suprimindo
prazos para a defesa, além de ter impedido Lula de fazer campanha enquanto
recorre da rejeição e ter aberto de imediato o prazo para o PT trocar de
candidato.





