Saída de Parente pode ter se dado por interferência de Moreira Franco
O assunto mais
comentado nos bastidores dos gabinetes do Palácio do Planalto, do Congresso
Nacional e dos ministérios hoje (1º) foi a avaliação de que a demissão
de Pedro Parente da presidência da Petrobras foi
consequência direta de críticas feitas internamente à sua conduta e até mesmo à
pressão para que alterasse em algum item a política de preços da estatal. Tais
pressões vinham sendo feitas nos últimos dias pelo seu chefe mais direto, o
ministro de Minas e Energia, Wellington Moreira Franco, o que contribuiu para a
decisão de Parente de deixar o cargo.
Entre ministros e
parlamentares da base do governo no Congresso, Moreira Franco trabalhava com a
possibilidade de mexer no plano instituído para a
companhia de forma leve, mas imediata, como forma de negociar
com os caminhoneiros. Mas esse tipo de alteração enfrentava resistência por
parte de Parente.
O ponto alto do confronto velado
terminou sendo declarações dúbias de Moreira Franco e do presidente da
República, Michel Temer, de que poderia, sim, haver uma revisão da política de
preços dos combustíveis.
O que mais se comentou no Palácio do
Planalto e nos gabinetes do Congresso ao longo do dia foi que Parente poderia
ficar por mais um tempo no cargo e que sua saída terminou prejudicando ainda
mais os rearranjos que estão sendo feitos, no sentido de normalizar a situação
no país. Já o ministro Moreira Franco não se posicionou sobre o tema, nem
respondeu aos pedidos de entrevista.
Segundo pessoas
próximas a Parente, ele teria ficado muito insatisfeito com a entrevista
concedida por Temer à TV Nacional, da EBC, na qual o presidente
admitiu poder ser feita uma revisão na política de preços. A entrevista foi
avaliada como um sinal de Michel Temer de aval à posição de Moreira
Franco.
No dia seguinte, depois do estrago
feito, Temer tentou retificar sua declaração dizendo que tinha se expressado
mal, mas já tinha deixado clara a possibilidade de recuo, por parte do governo,
na política da Petrobras.
Para piorar ainda mais o quadro,
Moreira Franco defendeu, durante debate sobre a questão na Câmara dos Deputados
no mesmo dia, a necessidade de ser feita uma mudança no sistema para permitir,
ao menos, que houvesse menos indefinição para os consumidores sobre os aumentos
dos combustíveis.
“Pedro Parente foi
amplamente criticado em todo esse episódio do aumento do óleo diesel e da greve
dos caminhoneiros pela população, petroleiros, parlamentares e até integrantes
do governo e se manteve firme. Sua saída, a meu ver, foi
consequência das demonstrações dúbias do Executivo”, avaliou
o economista Henrique Nóbrega, professor da Universidade de Brasília (UnB)
e analista legislativo do Senado.
Segundo Nóbrega,
pesou na saída do executivo da estatal o fato de, “em uma hora, defenderam
sua gestão e o considerarem insubstituível no cargo e, pouco tempo depois,
recuarem e darem a entender que a política da Petrobras será revista”.
O economista é da opinião que,
independentemente das críticas feitas à atual gestão da Petrobras e das
reclamações de parlamentares de todos os partidos, a saída de Pedro Parente não
mudará as regras da estatal a curto prazo.
Até porque as queixas
e críticas foram referentes não apenas aos constantes aumentos dos combustíveis,
mas também à forma como Temer cedeu às reivindicações dos caminhoneiros e retirou dinheiro de áreas
sensíveis para suprir a conta pela redução do preço do diesel. De
verbas antes destinadas para saúde, educação e agricultura familiar, entre
outros – em vez de permitir que os recursos saíssem da própria estatal.
Caminhoneiros
Quando questionado sobre a situação de
Pedro Parente durante entrevista coletiva no início da semana, o ministro da
Casa Civil, Eliseu Padilha, afirmou que qualquer mudança na Petrobras estava
“fora de questão”.
Padilha destacou, na ocasião, que
“Parente foi bem escolhido para estar no lugar onde está e tem respondido
positivamente nas ações que vem implantando” – numa demonstração de que não
contava com a carta de demissão apresentada nesta sexta-feira.
O executivo pediu demissão
justamente na data em que completou dois anos como presidente da Petrobras. Parente
afirmou, durante a carta entregue ao presidente Michel Temer, que não estava
mais vendo sua participação na companhia como positiva. Destacou, ainda, que
tal participação não teria mais condições de contribuir para as alternativas
que o governo tem pela frente, motivo pelo qual considerou melhor sair do
cargo.
No Senado, os
parlamentares se preparam para instalar, a partir da próxima semana, a Comissão Parlamentar de
Inquérito (CPI) que vai investigar a política de preços da Petrobras e
a gestão da companhia desde 2016.
A CPI teve número de assinaturas maior
que o necessário e conta com o apoio de oposicionistas e também integrantes do
governo, como os senadores Omar Aziz (PSD-AM), Otto Alencar (PSD-BA), Maria do
Carmo (DEM-SE), Eduardo Braga (MDB-AM), Marta Suplicy (MDB-SP) e Roberto
Requião (MDB-PR). O requerimento que pediu a criação da comissão teve como
autora a senadora Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM).






