Repressão contra caminhoneiros mostra desespero de Temer, diz Eugênio Aragão
O anúncio do
presidente Michel Temer de usar as forças federais para
liberar as estradas do país, bloqueadas pela greve dos caminhoneiros, é uma
“atitude de desespero”, na opinião do ex-ministro da Justiça Eugênio Aragão.
Temer está “numa enrascada”, avalia, inclusive porque o acordo anunciado ontem
(24) pelo governo não contemplou o comando grevista e as principais entidades
representativas dos caminhoneiros.
O governo anunciou
ainda decreto de Garantia da Lei e da Ordem (GLO), em todo o território
nacional, autorizando o uso da violência militar. A Associação Brasileira
dos Caminhoneiros divulgou comunicado orientando a manutenção de manifestações
pacíficas, sem bloqueio de rodovias.
"Após o pronunciamento do
presidente da República, a Abcam, preocupada com a segurança dos caminhoneiros
envolvidos, vem publicamente pedir que retirem as interdições nas rodovias,
mas, mantendo as manifestações de forma pacífica, sem obstrução das vias",
diz a nota da entidade.
Aragão observa que o governo obteve
acordo com entidades menores, mas não com as grandes. "Eles (o governo)
sabem que não têm controle da situação."
As duas entidades mais representativas
dos caminhoneiros recusaram as propostas do governo, colocadas à mesa
pelo ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha: a Associação Brasileira dos
Caminhoneiros (Abcam), que representa cerca de um milhão de caminhoneiros, e a
União Nacional dos Caminhoneiros (Unicam).
Além delas o acordo
não foi endossado pelo Sindicato dos Transportadores Autônomos de Carga de
Ijuí (Sinditac-RS), Associação Nacional das Empresas de Transporte
Rodoviário de Cargas (NTC & Logística) e a Transporte Forte Digital, que
ontem haviam participado da reunião com a Casa Civil, segundo o site Congresso em Foco.
“Eles sabem que a estrutura de preços
adotada pelo Pedro Parente (presidente da Petrobras), com apoio do Temer,
inviabilizou o negócio deles, que é o de frete individual. É uma situação de
impasse”, acrescenta Eugênio Aragão.
Em comunicado à sociedade brasileira,
o coordenador da Federação Única dos Petroleiros, José Maria Rangel,
acusou "o golpista Michel Temer e Pedro Parente, a quem ele deu o comando
da Petrobras" de serem os grandes responsáveis pelos preços abusivos dos
combustíveis no Brasil. A política de preços adotada atualmente pela
Petrobras é ancorada nos preços internacionais.
Apesar da não adesão das principais
entidades, Temer afirmou em pronunciamento no início da tarde que “uma minoria
radical tem bloqueado estradas, impedindo que muitos caminhoneiros atendam a
população e façam seu trabalho".
O desenrolar do movimento que já
provoca desabastecimento deixou Temer em uma situação comparável a uma
“sinuca de bico”, diz Aragão. “Grande parte desses grevistas não vota com o PT.
É gente vinculada a grupos mais radicais de direita. Se eles reprimirem esse
pessoal, vai ter uma massa de pessoas contra o governo e a resistência ao golpe
vai assumir outra dinâmica. Ele está numa enrascada, é uma situação de sinuca de
bico.”
Para ele, ou Temer
cede e o governo fica à mercê de outras situações similares, “e aí para tudo,
ou ele reprime”. “São Paulo já está em estado de pré-conflagração. O povo
está furioso. Tem gente perdendo dinheiro, deixando de trabalhar, levando falta.
A situação está desesperadora.”
Na opinião de Aragão, a situação do
país com o movimento dos caminhoneiros é imprevisível. “Tem gente apostando no
caos. A direita, hoje, só tem um candidato, que não é confiável, o Bolsonaro.
Então temos ele e a esquerda. Do ponto de vista do governo, a situação é de
desespero. Há setores, inclusive a Globo, que não conseguiram achar seu
candidato, e estão apostando na conflagração para não ter eleição este ano.”
O comando da greve exige a redução do
preço do diesel na bomba e considera insuficiente a proposta de 30 dias de
estabilidade de preços. Eles querem no mínimo 180 dias. Outra exigência
inegociável dos grevistas é a eliminação da incidência de PIS/Cofins sobre o
diesel, que a Câmara dos Deputados aprovou nesta quinta-feira, mas que precisa
ainda passar pelo Senado. Sem a publicação da proposta, a greve não será
interrompida, dizem as lideranças.





