Com lógica privatista preço não cai, diz economista. ‘País pode parar nesta sexta’
Existe o interesse
dos acionistas que querem maximizar os lucros para que fiquem mais ricos e
existe o interesse nacional. Para o economista Guilherme
Mello, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) a política
adotada pela gestão de Pedro Parente, presidente da Petrobras, sob comando de
Michel Temer (MDB) trilha pela primeira opção.
O aumento expressivo dos
combustíveis em curto espaço de tempo desencadeou protestos de
caminhoneiros, que começa a desencadear uma crise no abastecimento do
país. O protesto entra no quarto dia nesta quinta-feira (24) e,
segundo avalia o economista, se não houver uma solução negociada o país para
nesta sexta.
Para o economista é
essencial que o governo mude a política de precificação dos combustíveis para
acabar com a crise. "É importante dar estabilidade para esse insumo que é
fundamental. No Brasil, os combustíveis abastecem toda a frota que leva cargas,
já que temos basicamente caminhões (...) Essa política só beneficia acionistas
e o mercado financeiro", disse à Rádio Brasil Atual.
O processo de privatização da Petrobras
é um dos fatores, de acordo com Mello, para essa política adotada pelo governo.
"Em um processo de privatização – essa é a verdade, a Petrobras está sendo
vendida e o governo não tem coragem de fazer isso de uma vez, porque as pessoas
sabem que ela é um ativo valioso – essa política atual de valorização é
maravilhosa. Você sobe as ações da empresa porque aumentam os lucros e então
você vende ela."
"Do ponto de vista do interesse
nacional, é preciso reverter essa lógica privatista. Tanto na política de
preços quanto na venda. Estão vendendo poços do pré-sal em um momento em que o
petróleo está valorizando Estamos entregando riquezas para o interesse
estrangeiro", continuou o economista.
Uma solução é difícil a curto prazo se
a condução da estatal seguir dessa maneira, mas existem mecanismos. "Temos
a empresa que produz petróleo. Não digo para segurar o preço para sempre, mas
temos a condição de manter a estabilidade em momentos de forte volatilidade.
Assim como o dólar sobe, ele cai. Assim como o preço do barril de petróleo
sobe, depois ele cai. É possível, por algum período, ajustar muito mais
lentamente para dar estabilidade e acomodar os setores."
A redução do imposto da Contribuição de
Intervenção no Domínio Econômico (Cide), como foi proposto pelo governo Temer,
possui pouca eficácia, de acordo com Mello. "Outras medidas de cunho
tributário podem ser pensadas, mas elas são limitadas. Um dos maiores pesos
tributários sobre combustíveis é o ICMS, que é de nível estadual. É muito mais
difícil reduzir ele do que a Cide que é pouco relevante. Tirar a Cide impacta
pouco na bomba e discutir o ICMS impacta no pacto federativo e no caixa dos
estados, já abalado", explica.
Futuro sombrio
Para o economista, o próximo pesadelo
que o país pode enfrentar tem relação com a Eletrobras, que está em vias de ser
privatizada. "Se privatizar, a volatilidade de preços vai aumentar. A
lógica de precificação do agente privado não calcula o que é melhor para o
país, mas o que é melhor para eles mesmo. No caso da Eletrobras, você vai
privatizar o fluxo dos nossos fios. Se for privatizado, abriremos mão do
controle de diversas áreas."
"Boa parte da nossa energia é
feita através de hidrelétricas. A gestão do regime de águas tem que ficar na
mão do poder público. Podemos ter secas mais prolongadas e isso não pode seguir
uma lógica puramente privada. Podem falar de agências reguladoras, mas é
clássico elas serem capturadas pelo regime privado. Estamos abrindo mão do
petróleo e da água, dois insumos essenciais", disse.
Outro detalhe assombroso é o fato de os
defensores da lógica privatista afirmarem que o mercado se regula de forma mais
eficiente. "Estamos entregando áreas estratégicas para investidores
estrangeiros e, muitas vezes, estatais em seus países. Quando você privatiza,
fala que o Estado é ruim, não funciona, ai você vende a Petrobras para estatais
chinesas e europeias. São estatais assim como a Petrobras."






