Parlamentarismo no Brasil é instrumento de golpe, dizem cientistas políticos
O parlamentarismo volta a ser
apresentado como solução política para o Brasil. A articulação, liderada pelo
PSDB, faz lembrar o ano de 1961, quando um “acordo” permitiu a posse de João
Goulart, sob a condição de se implantar o sistema que retirava os poderes do
presidente. O pretexto dos mudancistas da época era tirar o país da crise após
a renúncia de Jânio Quadros.
O ex-presidente do PSB, Roberto Amaral,
define a ideia de um parlamentarismo brasileiro, tanto nos anos 60 do século
passado como hoje, de maneira objetiva. “No mundo, é um sistema de governo.
Mas, no Brasil, é um instrumento de golpe, como foi na crise da posse de João
Goulart. Sem discutir o parlamentarismo como tese, mas no nosso país é um
instrumento que visa a impedir que as massas possam influir na composição
do poder, quando vota para presidente.”
Amaral lembra que o sistema foi
rejeitado três vezes no Brasil: em plebiscito realizado em 1963, ainda sob o
governo Jango; na Constituinte de 1988, quando o Congresso Nacional optou pelo
presidencialismo; e em novo plebiscito, realizado em 1993, quando 55,4% dos
eleitores novamente escolheram o presidencialismo, contra apenas 24,6%.
A população brasileira mal sabe que o
parlamentarismo significa transferir a chefia de Estado a um primeiro-ministro,
ou seja, ao Congresso Nacional. Se houver plebiscito, e portanto uma campanha
em que os eleitores sejam esclarecidos, é praticamente impossível que a ideia
passe pelo crivo popular. “A ideia teria uma rejeição muito grande, porque
seria entregar o orçamento público para um parlamento como o atual. É uma
loucura completa”, diz o analista político Antônio Augusto de Queiroz, do
Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap).
Roberto Amaral lembra que o histórico
recente da Câmara dos Deputados seria um péssimo cabo eleitoral para os defensores
da mudança de sistema hoje. “No parlamentarismo, quem governa é o Congresso. Se
transferirmos os destinos do país ao parlamento, seríamos governados por esse
Congresso que está aí, que elegeu Eduardo Cunha, que tem cerca de 300 a 400
personagens respondendo a processo, e que é controlado pelo poder econômico. Um
Congresso sem representação e legitimidade, que legisla de costas para a
população”, avalia. “Podemos ter um Congresso em conflito com o presidente como
tivemos com a Dilma. Vai ser uma sequência de golpes. E outra questão crucial é
a fragilidade dos partidos brasileiros, que não têm controle sobre suas
bancadas.”
Sabendo das dificuldades de defender a
ideia junto à população, o senador Tasso Jereissati (PSDB-CE) propõe a adoção
do parlamentarismo – segundo ele a partir de 2022 –, mas sem plebiscito.
Segundo ele, no seu partido há quem defenda a necessidade de consulta popular,
do que ele discorda. "Na minha opinião, não (precisa de plebiscito)”,
disse, no dia 9, após reunião da Executiva Nacional do PSDB. O senador afirmou
que a adoção do voto distrital misto já em 2018 seria o primeiro passo para a
transição de sistema.
Uma pesquisa divulgada na segunda-feira
(14) pelo Instituto Paraná Pesquisas revelou que 59,6% dos brasileiros
(consultados pela internet) não sabem sequer o que é parlamentarismo e 46,4%
rejeitam a mudança, contra 39,4% a favor. “Os parlamentaristas nunca se deram
ao trabalho de explicar, porque, se explicar, aí que a população fica contra”,
ironiza Amaral.
Oportunismo
Para o cientista
político do Diap, Antônio Augusto de Queiroz, a estratégia do PSDB tem um
caráter claro. “É um oportunismo. Por que eles não levantam esse tema por
ocasião das campanhas eleitorais, assumindo que são parlamentaristas quando
disputam as eleições?” Na sua opinião, os tucanos tentam “arrumar uma
saída e, concluído o mandato de Temer, garantir o poder de qualquer jeito lá na
frente”.
Mas ele avalia que as dificuldades não
serão pequenas para a ideia avançar. Isso porque muitos políticos são defensores
da tradição presidencialista, independentemente de sua ideologia. Ele lembra
que o DEM (como antigo PFL) desemprenhou papel importante a favor do
presidencialismo, na campanha de 1993. Como o PT, o PDT é outro que defende o
sistema atual.
Já o PMDB deve apoiar o
parlamentarismo, avalia Queiroz, uma vez que Michel Temer está apoiando o
sistema. Mas, mesmo assim, a proposta não deve passar. “Teria uma rejeição
muito grande. Não há ambiente para a mudança, porque os parlamentares têm
outras prioridades e não vão dar um segundo golpe sequenciado.”
Seja como for, a própria mudança em si
já projeta discussões jurídicas. A tese do senador Tasso Jereissati de que não
é necessário um plebiscito está longe de ter respaldo na interpretação da
Constituição. Para o tucano, uma proposta de emenda à Constituição (que precisa
de 308 votos nas duas casas legislativas) é suficiente.
“Se o parlamentarismo foi rejeitado em
plebiscito, só um plebiscito poderia decidir a questão. A população se
pronunciou em plebiscito, que é maior que emenda. E eu levanto mais uma coisa:
se o pronunciamento plebiscitário sobre o texto de 1988 não a torna a decisão
cláusula pétrea, na vigência da atual Constituição”, avalia Roberto
Amaral.
Em 1961, o primeiro
gabinete parlamentarista "reuniu representantes dos principais partidos –
o PSD, o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) e a União Democrática Nacional
(UDN) –, tendo à frente o primeiro-ministro Tancredo Neves, do PSD",
conforme lembra a Fundação Getúlio Vargas.
Fonte: Rede Brasil Atual






