Temer mira 'batalha da comunicação' na reforma da Previdência
O jornal O Estado de S.Paulo noticiou, no último dia 6, que um novo “movimento”
surgia para se contrapor à chamada reforma da Previdência. Batizado de “Apoie a
reforma”, teria como um de seus principais articuladores Luiz Felipe d’Ávila,
que também é presidente do Centro de Liderança Pública (CLP), organização
voltada ao desenvolvimento de líderes públicos.
Trata-se
de uma rara tentativa de um segmentos da sociedade civil se colocando a favor
da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 287. Antes, organizações como o
Movimento Brasil Livre (MBL) e Vem Pra Rua tentaram defender a necessidade de
alterações no sistema previdenciário, mas fracassaram ao tentar angariar apoio
popular.
Agora, o jogo pode ser mais pesado. O jornalista
Fernando Brito, em post do Tijolaço, observa que o CLP é mantido
por alguns grandes atores do setor financeiro-econômico. Como diz o próprio
site, a entidade “conta com o apoio manifesto ou anônimo de pessoas físicas e
jurídicas comprometidas com a promoção de mudanças transformadoras na sociedade
por meio da liderança pública”. Entre aqueles que se comprometem publicamente,
estão a BM&F Bovespa, o BTG Pactual, o Credit Suisse, o Itaú Unibanco e
nomes como o de Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central na era FHC e hoje
principal acionista da Gávea Investimentos.
O movimento já teria um site. No entanto, como o Apoie a Reforma é uma página apócrifa, sem
ter nenhum responsável nomeado (pelo menos até as 15h30 de 10 de abril), é
difícil até afirmar que se trata de um site oficial. Mas o discurso governista
está todo ali. Primeiro, prega-se o caos em caso de não aprovação da PEC 287.
Depois, nomeia-se um inimigo: um “contingente de privilegiados do funcionalismo
público”.
A tática é similar à já apresentada por Michel
Temer em vídeo divulgado nas redes sociais naquela
quinta-feira (6), quando colocou no mesmo balaio aposentadorias de políticos e
dos servidores públicos. O presidente, obviamente, não fez menção às
especificidades do serviço público, como o fato de não existir Fundo de
Garantia do Tempo de Serviço para a carreira, por exemplo. Afinal, o objetivo é
mostrar que a reforma vai “acabar com privilégios”, quando, no máximo, ela
conseguiria nivelar todos por baixo, excluindo milhões de
pessoas do acesso a benefícios previdenciários.
O site de apoio à proposta do Planalto pede ainda
que os visitantes pressionem os parlamentares a votar a favor da reforma,
utilizando a mesma tática daqueles que se organizam contra as alterações.
Difícil pensar que, somente com a estratégia do terror ou com a criação e um
inimigo, o governo e seus parceiros vão reproduzir igual pressão que os
opositores da PEC 287 têm conseguido fazer não só por meio da internet, mas por
mobilizações e mesmo com a colocação de outdoors em diversas cidades
brasileiras.
Cabe lembrar que a iniciativa surge dias depois de
o presidente ter buscado, em um jantar que teve como anfitrião Carlos
Jereissati, presidente do Grupo Iguatemi, o apoio de empresários para
aprovar a reforma. Estiveram presentes no encontro Carlos Alberto
Sicupira, da Ambev, nome frequente na lista dos bilionários da Forbes; José
Roberto Ermírio de Moraes, da Votorantim; além de representantes de
instituições poderosas como Luiz Carlos Trabuco, do Bradesco, e Pedro Passos,
da Natura.
A
campanha sobre a Previdência informa alguma coisa?
À investida de “parceiros” de fora do governo
– leia-se instituições financeiras e similares –, soma-se também a
nova campanha publicitária que o governo prepara, com foco nos jovens. Aliás, a promoção dessas peças
publicitárias só será possível depois da decisão da ministra Cármen Lúcia que,
na semana passada, autorizou o governo a voltar a veicular propaganda relativa à PEC 287.
Em 15 de março, a juíza Marciane Bonzanini,
da 1ª Vara Federal de Porto Alegre, disse na fundamentação da decisão que
determinou a suspensão da propaganda do
Planalto que a campanha “busca tão somente angariar apoio
popular a um projeto do Governo Federal – cujo teor não é divulgado nas peças –
e o faz por meio da ampla e contundente divulgação de mensagens que não trazem
informação alguma, senão disseminam insegurança e medo na população, ao
enfatizarem que os benefícios e as aposentadorias podem deixar de ser pagos,
caso a reforma proposta pelo Governo Federal não se concretize”.
Para a presidenta do STF, segundo o texto da decisão que liberou a veiculação
das peças publicitárias, a disseminação da insegurança não é propriamente um
problema. “Alarde feito sobre o projeto de emenda constitucional pode
desestabilizar pessoas causando-lhes insegurança e angústia, por perceberem o
direito ao benefício previdenciário se afastar de si, mas talvez seja esse o
mote que impulsionará os cidadãos a buscar dela conhecer e sobre ela se
informar. Assentado o convencimento sobre a questão e fixada a opinião
favorável ou desfavorável à medida, poderá o cidadão se organizar e influir no
debate democrático que se travará sobre a proposta de reforma e seu alcance.”
Parece
que o terror difundido pelo governo pode ser “bom” e motivar as pessoas a se
“informarem”. Em outro trecho, diz a ministra: “Ressalte-se que o
desvirtuamento das informações prestadas ecoa quase tão gravemente quanto a
ausência delas, pois ambas representam desatendimento ao princípio da
publicidade e descumprimento dos deveres de transparência e de informação. Se,
de um lado, a divulgação de informações contraditórias e desencontradas é um
mal, de outro, a alienação representa mal maior, por subtrair do cidadão a
capacidade de se definir, de se organizar e propor soluções alternativas,
valendo-se, para tanto, da capacidade de influir sobre os representantes que
elegeu”.
Ou
seja, tem-se a impressão de que o governo pode divulgar “informações
contraditórias e desencontradas” porque pior seria se nada divulgasse. Dado que
o debate público tem ainda, ao lado da proposta do governo, a maior parte da
mídia tradicional, a decisão não atende a qualquer princípio de justiça ou
equidade. Pende para um lado e prejudica quem de fato deveria ser informado. Em
um batalha na qual o governo está perdendo, pode ser um alento para os
defensores da reforma.
Fonte:Rede Brasil Atual






