Comissão do Senado aprova relatório da PEC 55
Agora, proposta do governo Michel Temer que congela investimentos públicos por 20 anos segue para votação em dois turnos no plenário da Casa
A Comissão de Constituição
e Justiça e de Cidadania (CCJ) do Senado aprovou hoje (9), depois de sete horas
de discussões, a íntegra do relatório da Proposta de Emenda à Constituição
(PEC) 55, que congela os gastos públicos – o que permite que a matéria seja
encaminhada para votação no plenário da Casa. No parecer, o relator, senador
Eunício Oliveira (PMDB-CE), rejeitou as 59 emendas apresentadas. A oposição
protestou e apresentou um texto substitutivo e dois votos em separado, estes
últimos, para condicionar a implementação das medidas de ajuste à aprovação da
proposta por meio de uma consulta popular, mas as duas alternativas foram
rejeitadas.
No
final, a matéria foi aprovada diante de uma cena insólita no Congresso, na qual
foram os senadores que vaiaram a manifestação de um grupo pequeno de
estudantes. “Vocês envergonham o país. É muito fácil para vocês falarem na
crise econômica e na situação do povo brasileiro aprovando medidas como essa
que só vão afetar a vida dos mais pobres”, gritaram duas moças, em meio a risos
e levantes por parlamentares da base do governo. “Nunca vi uma coisa dessas, de
senadores vaiarem o povo na casa que é do povo”, ironizou a senadora Vanessa
Grazziotin (PCdoB-AM).
O
encerramento dos trabalhos referentes à PEC 55 na CCJ foi motivo de reclamações
dos senadores da oposição, que se queixaram de os integrantes da comissão não
terem dado espaço para que a matéria fosse mais debatida. O presidente da
comissão, José Maranhão (PMDB-PB), também impediu que fossem aceitas duas
outras emendas de destaque apresentadas no último momento por Gleisi Hoffmann
(PT-PR), com o argumento de que não existia autorização no regimento para isso,
o que levou a uma discussão sobre regras regimentais do Congresso.
Como
forma de mostrar a importância de uma consulta popular, a senadora Vanessa
Grazziotin (PCdoB-AM) divulgou o resultado de pesquisa que está sendo realizada
pelo site do Senado junto à população sobre a proposta. O trabalho mostra que,
até ontem, 341 mil pessoas responderam às perguntas. Dessas, 321 mil disseram
ser contrárias ao congelamento dos gastos públicos e somente 20 mil se
manifestaram favoráveis.
“Não
adianta dizerem que esse resultado só saiu assim porque a pesquisa foi feita
pela Internet. Então que aceitem ir às ruas, perguntar ao povo. Essa proposta é
uma das mais injustas e truculentas apresentadas ao país”, afirmou a senadora.
A explicação do relator para rejeitar as emendas foi de que “a situação
econômica é muito séria e não permite mais atrasos na apreciação da PEC”.
Eunício
disse que a diminuição da dívida pública é “essencial” para a reorganização da
economia do Brasil e “tudo o que está em jogo é a segurança orçamentária, para
que a União não gaste mais do que arrecada, daqui por diante”.
Impeachment
do próximo presidente
Já
no texto substitutivo ao da PEC, lido pelo senador Roberto Requião (PMDB-PR), o
parlamentar afirmou que a Constituição Federal estabelece a reserva de
iniciativa que cabe ao Executivo em matéria orçamentária. De acordo com
Requião, da forma como se encontra, a matéria significa o mesmo que eliminar a
possibilidade de o chefe do Executivo a ser eleito pelo povo em 2018 conseguir
governar.
A
PEC fará, em sua opinião, com que o próximo presidente assuma o cargo com as
mãos atadas e impedido de definir suas estratégias de gestão. “É o mesmo que
decretar o impeachment do próximo presidente desde já. A mesma proposta também
representa a cassação dos parlamentares futuros”, acentuou.
O
substitutivo sugeria que ficasse estabelecido, dentre suas principais medidas,
o prazo máximo de quatro anos para a vigência de qualquer plano aprovado
referente ao ajuste fiscal, que este prazo máximo de prevalência das medidas
fiscais fosse sempre compatível com o do Plano Plurianual (PPA), que os gastos
do governo fossem condizentes com o crescimento populacional e que fosse
garantido o aumento real do salário mínimo sempre que registrado crescimento
econômico no país. Determinava, ainda, que qualquer outro acréscimo a ser feito
futuramente fosse objeto de um referendo.
O
texto da PEC, que com a votação desta tarde permanece da forma como chegou ao
Senado pela Câmara dos Deputados, limita as despesas primárias do governo
federal (aquelas não destinadas ao pagamento de juros), pelos próximos 20 anos,
ao valor gasto no ano anterior mais a correção pelo Índice Nacional de Preços
ao Consumidor Amplo (IPCA) do período de junho do ano retrasado a julho do ano
anterior de cada exercício.
Contestações
Eunício
Oliveira foi alvo de contestações de colegas quando disse que as áreas de saúde
e educação, que afirmou serem “essenciais para o desenvolvimento do país e
bem-estar da população”, não serão prejudicadas com a proposta. “Serão
sim, senador”, rebateram de pronto as senadoras Gleisi Hoffmann e Fátima
Bezerra (PT-RN). Em outro momento tenso da sessão, o relator afirmou que a PEC
“mantém a atual regra para o piso da educação até 2017 e, a partir daí,
estabelece um crescimento pela inflação”. E acrescentou que, em relação à
saúde, o volume de 13,4% da Receita Corrente Líquida (RCL) destinada ao setor
passará a ser de 15% a partir de janeiro de 2017.
Lindbergh
Farias reclamou: “Não haverá aumento algum, senador. Só congelamento com
redução de serviços. O senhor está muito mal informado”. Para Eunício
Oliveira, o colega é que está equivocado, mas o relator não entrou em
maiores detalhes em sua explicação nem se prontificou a verificar o item
mencionado por Lindbergh. Limitou-se a pedir, em tom irritado, ao presidente da
CCJ, para interferir e evitar que ele voltasse a ser interrompido.
Tumulto
A
votação da PEC teve início tumultuado, do lado de fora do Congresso. Isto
porque grupos de estudantes e índios da etnia Guarani Kaiowa foram impedidos de
entrar no Senado pela polícia legislativa. Após um acordo feito pelos senadores
Humberto Costa (PT-PE) e Gleisi Hoffmann, ficou acertado que uma comissão
representativa de cinco alunos poderia acompanhar a audiência na comissão.
Os
demais estudantes e os índios foram liberados para ter acesso ao Congresso, mas
pelo anexo II da Câmara dos Deputados, para participar de audiências públicas
sobre outros temas, sem permissão para que chegassem ao local onde estava sendo
discutida a PEC.
A
proibição, além de ter sido denunciada pelos oposicionistas como uma espécie de
blindagem aos senadores apoiadores da PEC, também foi considerada parte da
estratégia adotada pelo governo para evitar que emendas que alterassem o texto
viessem a ser aprovadas. Contraditoriamente, a sala da CCJ ficou repleta de
assessores legislativos e técnicos convidados pelos parlamentares da base do
governo.
Nos
bastidores, informações de senadores do PT e do PCdoB, confirmadas por um
peemedebista, foram de que desde segunda-feira (7) o presidente Michel Temer e
sua equipe de articulação política têm realizado audiências diversas com
parlamentares para garantir a aprovação do relatório sem emendas.
Ao
longo destes três dias, foram sete os encontros com líderes e parlamentares com
atuação mais expressiva na legislatura – incluindo o que Temer teve com o
presidente nacional do PSDB, senador Aécio Neves (MG), na noite de ontem. E,
ainda, diversos os telefonemas trocados entre ministros e o presidente do
Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL).
Fonte: Rede Brasil Atual






