Temer decide cortar auxílio de trabalhadores afastados por doença
Objetivo é cancelar 30% dos benefícios em vigor. Medida também vai interromper 150 mil aposentadorias por invalidez

O governo
interino de Michel Temer decidiu restringir o acesso e cancelar boa parte dos
benefícios previdenciários por incapacidade, como o auxílio-doença e
aposentadoria por invalidez. As mudanças, já em vigor, constam na Medida
Provisória (MP) 739, publicada na semana passada. A MP permite a realização de
perícia médica para reavaliação de todos os segurados.
Com isso,
a expectativa da equipe de Temer é cortar cerca de 30% dos auxílios-doença,
afetando mais de 250 mil dos 840 mil beneficiários em todo o país. No caso das
aposentadorias por invalidez, a meta do governo interino é reduzir o benefício
em 5%, índice que representa 150 mil, do total de 3 milhões de segurados. A
economia de recursos pode ultrapassar os R$ 6,3 bilhões, segundo os cálculos
oficiais.
“Não
existe esse índice de irregularidade nos benefícios previdenciários que
justifique o cancelamento de 30% dos auxílios-doença, por exemplo. O que o
governo está fazendo é retroceder em direitos sociais da população mais pobre”,
aponta o advogado de Direito Previdenciário João Badari, sócio do escritório
Aith, Badari e Luchin Advogados.
Para
acelerar a realização das perícias médicas, a MP criou uma bonificação para
médicos peritos do INSS, com duração de 24 meses. Os peritos receberão R$ 60
por perícia realizada nas agências da Previdência Social. Na opinião de João
Badari, é uma forma de incentivar os peritos a realizarem o maior número
possível de reavaliações médicas. “Imagina, se um perito fizer 10 perícias em
um dia, ele ganha R$ 600. Em um mês, vai receber R$ 12 mil pelo serviço. Será
uma perícia mais precária, com pouco tempo para avaliar, o que deverá resultar
no cancelamento do benefício para segurados e aposentados que não tem condições
de retornar ao trabalho”, critica o advogado.
Alta
programada
A
concessão de novos benefícios também passará a ter regras mais rígidas. Pela
MP, “sempre que possível”, a concessão de auxílio-doença, judicial ou
administrativa, deverá fixar o prazo estimado para a duração do benefício. Na
ausência de fixação do prazo, o benefício será cortado após o prazo de 120
dias, contado da data de concessão ou de reativação. “Isso é uma aberração! As
pessoas tem uma capacidade de recuperação diferente, de acordo com idade, sexo
e condições físicas. Não pode haver corte automático sem que haja uma
reavaliação médica. Como uma pessoa afastada para o tratamento de um câncer,
por exemplo, vai saber que em 120 dias estará recuperada para voltar ao
trabalho?”, questiona João Badari, advogado especialista em Direito
Previdenciário. Ele prevê uma enxurrada de processos judiciais de segurados
contra as novas medidas, o que deve reduzir a economia pretendida pelo
Ministério da Fazenda.
O governo
Temer também pretende reavaliar cerca de 4,2 milhões de inscrições no Benefício
de Prestação Continuada (BPC), concedido a idosos ou pessoas com deficiência
com renda familiar per capita menor que R$ 220 por mês (um quarto do salário
mínimo).
Sem
déficit
O advogado
João Badari, especialista em Direito Previdenciário, classifica como “farsa” o
discurso do governo de que o INSS apresenta déficit e, por isso, precisa
reduzir os benefícios. “O INSS é amplamente superavitário, manteve saldo
positivo de R$ 50 bilhões ao ano e, mesmo em ano de crise, como agora, o saldo
é de cerca R$ 20 bilhões. Ao cortar direitos sociais, como aposentadoria e
auxílios por incapacidade, o governo quer jogar para os bancos a
responsabilidade, quer que as pessoas contratem previdência privada. É o
governo tentando privatizar o que deveria ser papel dele”, argumenta.
Badari
também não poupa críticas ao foco do governo, que é cortar benefício dos mais
pobres, segundo ele. “Por que não age para cobrar débitos previdenciários
devidos pelas empresas? Por que continuar desonerando a folha de pagamento das
empresas e, ao mesmo tempo, cortar direito social do trabalhador que financia a
Previdência? Não tem sentido”.





